CAPÍTULO
DOZE
O
Patrono
Harry
sabia que Hermione tivera boa intenção, mas isso não o impedia de estar
aborrecido com a amiga. Ele fora dono da melhor vassoura do mundo por
breves horas e agora, por interferência dela, não sabia se iria rever a
vassoura.
Harry
tinha certeza de que, no momento, não havia problema algum com a Firebolt,
mas em que estado ela ficaria depois de ser submetida a todo tipo de
teste antifeitiço?
Rony
também estava furioso com Hermione. Na sua opinião, desmontar uma Firebolt
nova em folha era nada menos que um ato criminoso.
Hermione,
que continuava convicta de que agira visando o bem do amigo, começou a
evitar a sala comunal. Os dois garotos supunham que ela se refugiara na
biblioteca e não tentaram persuadi-la a voltar. Em tudo por tudo,
eles ficaram felizes quando o restante da escola voltou, pouco depois do
Ano-Novo, e a Torre da Grifinória novamente se encheu de gente e
ruídos.
Olívio
procurou Harry na véspera do novo trimestre começar.
—
Teve um bom Natal? — perguntou ele e, em seguida, sem esperar resposta, se
sentou, baixou a voz e disse: — Andei pensando durante o Natal,
Harry. Depois da última partida,
entende. Se os dementadores forem ao próximo... Quero dizer... Não podemos nos
dar ao luxo de você... Bem...
Olívio
parou, parecendo constrangido.
—
Já estou cuidando disso — falou Harry depressa. — O Profº. Lupin prometeu
que me ensinaria a afastar os dementadores. Devemos começar esta semana. Ele
falou que teria tempo depois do Natal.
—
Ah — respondeu Olívio, o rosto se desanuviando. — Bem, nesse caso... Eu
não queria realmente perder você como apanhador, Harry já encomendou uma
vassoura nova?
—
Não.
—
Quê! É melhor você se mexer, sabe, não vai poder montar aquela Shooting
Star contra o time da Corvinal!
—
Ele ganhou uma Firebolt de Natal — disse Rony.
—
Uma Firebolt? Não! Sério? Uma Firebolt de verdade?
—
Não precisa se excitar, Olívio — disse Harry deprimido.
—
Não está mais comigo. Foi confiscada. — E explicou tudo sobre
a Firebolt e como estava sendo verificada para saber se fora
enfeitiçada.
—
Enfeitiçada? Como poderia ter sido enfeitiçada?
—
Sirius Black — disse Harry, cansado. — Dizem que ele está querendo me
pegar. Então McGonagall calculou que poderia ter me mandado a vassoura.
Descartando
a informação de que um assassino famoso estava atrás do seu apanhador,
Olívio disse:
—
Mas Black não poderia ter comprado uma Firebolt! Ele está fugindo! O país
inteiro está à procura dele! Como é que iria simplesmente entrar na
Artigos de Qualidade para Quadribol e comprar uma vassoura?
—
Eu sei, mas ainda assim McGonagall quer desmontá-la...
Olívio
empalideceu.
—
Vou falar com ela, Harry — prometeu. — Vou chamá-la à razão... Uma
Firebolt... Uma autêntica Firebolt, no nosso time... Ela quer
que Grifinória ganhe tanto quanto nós... Vou fazê-la ver o absurdo.
Uma Firebolt...
As
aulas recomeçaram no dia seguinte. A última coisa que alguém ia
querer fazer era passar duas horas lá fora em uma fria manhã de
janeiro, mas Hagrid providenciara uma fogueira cheia de salamandras para
alegria dos alunos, que passaram uma aula incomumente boa juntando
madeira e folhas secas para manter o fogo alto enquanto os bichinhos,
que adoram chamas, subiam e desciam pelas toras embranquecidas de calor. A
primeira aula de Adivinhação do novo trimestre foi bem menos divertida; a
Profª. Sibila estava agora começando a ensinar quiromancia à turma e não
perdeu tempo para informar Harry de que ele possuía a menor linha da vida
que ela já vira.
Mas
era à aula de Defesa contra as Artes das Trevas que ele estava ansioso
para chegar; depois da conversa com Olívio, queria começar as aulas
antidementadores o mais cedo possível.
—
Ah, é verdade — disse Lupin quando Harry o lembrou da promessa no final da
aula. — Vejamos... Que tal às oito horas da noite na quinta? A sala
de aula de História da Magia deve ser suficientemente grande... Tenho
que pensar muito como vamos fazer.
Não podemos trazer um dementador real ao castelo para praticar...
—
Ele continua com cara de doente, não acha? — perguntou Rony quando
caminhavam pelo corredor para ir jantar. — Que é que você acha que ele
tem?
Ouviram
um alto muxoxo de impaciência atrás deles. Era Hermione que estivera
sentada ao pé de uma armadura, rearrumando a mochila, tão cheia de livros
que não fechava.
—
E por que é que você esta fazendo muxoxo para a gente? — perguntou Rony,
irritado.
—
Por nada — respondeu Hermione em tom de superioridade, passando a mochila
pelo ombro.
—
Nada, não — disse Rony. — Eu estava imaginando qual seria o problema de
Lupin, e você...
—
Bem, será que não está óbvio? — disse a garota com um olhar de superioridade
de dar nos nervos.
—
Se você não quer dizer, não diga — retrucou Rony com rispidez.
—
Ótimo — disse Hermione, arrogante, e foi-se embora.
—
Ela não sabe — disse Rony, olhando, rancoroso, para a garota que se
afastava. — Só está tentando fazer a gente voltar a falar com ela.
Oito
horas da noite de quinta-feira, Harry saiu da Torre da Grifinória para a
sala de História da Magia. Quando chegou, a sala estava escura e vazia,
mas ele acendeu as luzes com a varinha e já estava esperando havia uns
cinco minutos quando o Profº. Lupin apareceu, trazendo uma grande caixa,
que depositou em cima da escrivaninha do Profº. Binns.
—
Que é isso? — perguntou Harry.
—
Outro bicho-papão — respondeu Lupin
tirando a capa. — andei passando um pente fino no castelo desde terça-feira
e por sorte encontrei este aqui escondido no arquivo do Sr. Filch. É
o mais próximo que chegaremos de um dementador de verdade, O bicho-papão se transformará
em um dementador quando o vir, então poderemos praticar. Posso guardá-lo
na minha sala quando não estiver em uso; tem um armário embaixo da
minha escrivaninha de que ele vai gostar.
—
Tudo bem — disse Harry procurando falar como se não estivesse nada
apreensivo, mas apenas feliz por Lupin ter encontrado um substituto tão
bom para um dementador real.
—
Então... — O Profº. Lupin apanhou a varinha e fez sinal para Harry
imitá-lo. — O feitiço que vou tentar lhe ensinar faz parte da magia muito
avançada, Harry, muito acima do Nível Normal de Bruxaria. É chamado o Feitiço do Patrono.
—
O que é que ele faz? — perguntou Harry nervoso.
—
Bem, quando funciona corretamente, ele conjura um Patrono, que é uma
espécie de antidementador, um guardião que age como um escudo entre você e
o dementador.
Harry
teve uma súbita visão de si mesmo agachado atrás de um vulto do tamanho de
Hagrid segurando um enorme bastão. O Profº. Lupin continuou:
—
O Patrono é um tipo de energia positiva, uma projeção da própria coisa de
que o dementador se alimenta: esperança, felicidade, desejo de
sobrevivência, mas ele não consegue sentir desesperança, como um ser
humano real, por isso o dementador não pode afetá-lo. Mas preciso
preveni-lo, Harry, de que o feitiço talvez seja demasiado avançado
para você. Muitos bruxos habilitados têm dificuldade de executá-lo.
—
Que aspecto tem um Patrono? — perguntou Harry, curioso.
—
Cada um é único para o bruxo que o conjura.
—
E como se conjura?
—
Com uma fórmula mágica, que só fará efeito se você estiver concentrado,
com todas as suas forças, em uma única lembrança muito feliz.
Harry
procurou em sua mente uma lembrança feliz. Com certeza, nada que tivesse
lhe acontecido na casa dos Dursley iria servir. Por fim, decidiu-se pelo
momento em que voou numa vassoura pela primeira vez.
—
Certo — disse, procurando lembrar o mais exatamente possível da maravilhosa
sensação de voar.
—
A fórmula é a seguinte — Lupin pigarreou para limpar a garganta. — Expecto Patronum!
—
Expecto Patronum! — repetiu Harry em
voz baixa —, Expecto...
—
Está se concentrando com todas as forças em sua lembrança feliz?
—
Ah... Estou — respondeu Harry, forçando depressa seu pensamento a retornar
àquele primeiro vôo de vassoura. — Expecto patrono. Não, patronum... Desculpe... Expecto Patronum! Expecto Patronum!... — Alguma coisa se
projetou subitamente da ponta de sua varinha; parecia um fiapo de gás prateado.
—
O senhor viu isso? — perguntou Harry, excitado. — Aconteceu uma coisa!
—
Muito bem — aprovou Lupin sorrindo. — Certo, então, está pronto para
experimentar com um dementador?
—
Estou — disse o garoto, segurando sua varinha com firmeza e indo para o
meio da sala de aula deserta. Tentou manter o pensamento no vôo, mas
alguma coisa não parava de interferir... A qualquer segundo agora, poderia
tornar a ouvir sua mãe... Mas ele não devia pensar nisso ou tornaria a
ouvi-la, e ele não queria... Ou será que queria?
Lupin
segurou a tampa da caixa e levantou-a.
Um
dementador se ergueu lentamente da caixa, o rosto encapuzado virado
para Harry, uma mão luzidia, coberta de cascas de feridas, segurando a
capa.
As
luzes em volta da sala de aula piscaram e se apagaram. O dementador saiu
da caixa e começou a se deslocar silenciosamente em direção a
Harry, respirando profundamente, uma respiração vibrante. Uma onda de
frio intensa o engolfou...
—
Expecto patronum! — berrou Harry. — Expecto Patronum!
Mas
a sala e o dementador foram se dissolvendo... Harry se viu caindo outra
vez por um denso nevoeiro branco, e a voz de sua mãe mais alta que nunca,
ecoava em sua cabeça... “Harry não!
Harry não! Por favor... farei qualquer coisa...”
"Afaste-se. Afaste-se, menina...”
—
Harry!
Harry
de repente recuperou os sentidos. Estava deitado de costas no chão. As
luzes da sala tinham reacendido. Ele não precisou perguntar o que
acontecera.
—
Desculpe — murmurou, se sentando e sentindo o suor frio escorrer por dentro
dos óculos.
—
Você está bem? — perguntou Lupin.
—
Estou... — Harry usou uma carteira para se levantar, apoiando-se nela.
—
Tome aqui — Lupin lhe deu um sapo de chocolate. — Coma isso antes de
tentarmos outra vez. Eu não esperava que você conseguisse da primeira vez;
de fato, ficaria assombrado se tivesse conseguido.
—
Está piorando — murmurou Harry, mordendo a cabeça do sapo. — Eu a ouvi
mais alto dessa vez... E ele... Voldemort.
Lupin
parecia mais pálido do que de costume.
—
Harry, se você não quiser continuar, vou compreender muito bem...
—
Eu quero! — exclamou Harry com vigor, enfiando o resto do sapo de
chocolate na boca. — Tenho que continuar! O que vai acontecer se os
dementadores aparecerem na partida contra Corvinal? Não posso me dar ao
luxo de cair outra vez. Se perdermos a partida, perderemos a Taça de
Quadribol!
—
Muito bem, então... — disse Lupin. — Talvez queira escolher outra
lembrança, uma lembrança feliz, quero dizer, para se concentrar... Essa
primeira parece que não foi bastante forte...
Harry
fez um esforço mental e concluiu que sua emoção quando Grifinória ganhara
o Campeonato das Casas, no ano anterior, fora decididamente uma
lembrança muito feliz. Segurou a varinha com força, outra vez, e tomou
posição no meio da sala.
—
Pronto? — perguntou Lupin segurando a tampa da caixa.
—
Pronto — disse Harry, tentando por tudo encher a cabeça de pensamentos
felizes sobre a vitória de Grifinória, em lugar dos pensamentos
sombrios sobre o que ia acontecer quando a caixa se abrisse.
—
Já! — disse Lupin destampando a caixa. A sala ficou gelada e escura mais
uma vez. O dementador avançou deslizando, inspirando com força; a mão
podre estendida para Harry...
—
Expecto Patronum! — berrou Harry. – Expecto Patronum! Expecto Pat...
Um
nevoeiro branco obscureceu seus sentidos... Vultos grandes e difusos
moveram-se à sua volta... Então ele ouviu uma nova voz, uma voz de homem,
gritando em pânico... "Lílian, leve
Harry e vá! É ele! Vá! Corra! Eu o atraso...”
Os
ruídos de alguém saindo aos tropeços de uma sala... Uma porta se
escancarando... Uma gargalhada aguda...
—
Harry! Harry. Acorde...
Lupin
dava tapinhas em seu rosto. Desta vez levou um minuto até Harry entender
por que estava deitado no chão empoeirado de uma sala de aula.
—
Ouvi meu pai — murmurou Harry — É a primeira vez que o ouço, ele tentou
enfrentar Voldemort sozinho, para dar à minha mãe tempo de fugir...
O
garoto de repente percebeu que havia em seu rosto lágrimas misturadas ao
suor. Abaixou a cabeça o mais que pôde e enxugou as lágrimas nas vestes, fingindo
estar amarrando um sapato, para Lupin não ver.
—
Você ouviu Tiago? — disse Lupin numa voz estranha.
—
Ouvi... — O rosto seco, Harry ergueu a cabeça. — Por quê... O senhor
conheceu meu pai?
—
Eu... Para falar a verdade, conheci. Fomos amigos em Hogwarts. Escute,
Harry... Talvez devêssemos parar por hoje. Este feitiço é
absurdamente avançado... Eu não devia ter sugerido que você se submetesse
a essa...
—
Não! — disse Harry e tornou a se levantar. — Vou tentar mais uma vez! Não
estou pensando em lembranças muito felizes, é só isso... Espere aí...
O
garoto puxou pela memória. Uma lembrança realmente,
mas realmente feliz... Uma que ele pudesse transformar em
um Patrono válido e forte...
O
momento em que ele descobrira que era bruxo e ia deixar a casa dos Dursley
para freqüentar Hogwarts! Se isso não fosse uma lembrança feliz,
ele não sabia qual seria... Concentrando-se com todas as forças no
que sentira quando compreendeu que ia deixar a Rua dos Alfeneiros, Harry
se levantou e ficou de frente para a caixa mais uma vez.
—
Pronto? — perguntou Lupin, que parecia fazer isso contrariando o seu bom
senso. — Concentrou-se com firmeza? Muito bem... Já!
Ele
tirou a tampa da caixa pela terceira vez, e o dementador se levantou; a
sala esfriou e escureceu.
—
EXPECTO PATRONUM! — berrou Harry. — EXPECTO PATRONUM! EXPECTO PATRONUM!
A
gritaria dentro da cabeça de Harry recomeçara — exceto que desta vez,
parecia vir de um rádio mal sintonizado — fraca e forte e fraca outra
vez... ele continuava a ver o dementador — que parara — então, um enorme
vulto prateado irrompeu da ponta de sua varinha e ficou pairando entre ele
e o dementador, e, embora suas pernas tivessem perdido as forças,
Harry continuava de pé, por quanto tempo ele não tinha muita certeza...
—
Riddikulus. — bradou Lupin saltando à
frente.
Ouviu-se
um estalo muito alto e o diáfano Patrono desapareceu juntamente com o
dementador; o garoto afundou em uma cadeira, sentindo a exaustão de quem
correra mais de um quilômetro, e as pernas trêmulas. Pelo canto do olho,
viu o Profº. Lupin enfiar, à força, o bicho-papão
na caixa, com a varinha; ele se transformou mais uma vez em uma bola
prateada.
—
Excelente! — exclamou Lupin, aproximando-se do garoto. — Excelente Harry!
Decididamente foi um começo!
—
Podemos tentar mais uma vez? Só mais umazinha?
—
Agora, não — disse Lupin com firmeza. — Você já fez o bastante por uma
noite. Tome...
E
deu a Harry uma enorme barra do melhor chocolate da Dedosdemel.
—
Coma bastante ou Madame Pomfrey vai querer me matar. À mesma hora na
semana que vem?
—
Ok — concordou Harry. Ele deu uma dentada no chocolate enquanto observava
Lupin apagar as luzes que tinham reacendido com o desaparecimento do
dementador.
Acabava
de lhe ocorrer um pensamento.
—
Profº. Lupin, se o senhor conheceu meu pai, então deve ter conhecido
Sirius Black, também.
Lupin
se virou na mesma hora.
—
Que foi que lhe deu essa idéia? — perguntou ele com rispidez.
—
Nada... Quero dizer, eu soube que eles também eram amigos em Hogwarts...
O
rosto de Lupin se descontraiu.
—
É, eu o conheci — disse brevemente. — Ou pensei que o conhecia. É melhor você
ir andando, Harry, está ficando tarde.
O
garoto saiu da sala, andou um pouco pelo corredor, dobrou um canto, depois
se desviou para trás de uma armadura e se sentou em sua base para terminar
o chocolate, desejando que não tivesse mencionado Black, pois Lupin
obviamente não gostava de tocar nesse assunto. Então os pensamentos de
Harry foram vagando aos poucos para sua mãe e seu pai.
Ele
se sentiu esgotado e estranhamente vazio, ainda que estivesse empanturrado
de chocolate. Por mais horrível que fosse ouvir os últimos momentos de
seus pais repassarem por sua cabeça, eles tinham sido os únicos em que Harry ouvira as
vozes dos dois desde que era pequeno. Mas ele não seria capaz de produzir
um Patrono adequado se ficasse desejando ouvir os pais novamente...
—
Eles estão mortos — disse a si mesmo com severidade. — Estão mortos e
ficar ouvindo seus ecos não vai trazê-los de volta. É melhor você se
controlar se quiser aquela Taça de Quadribol.
Ele
se levantou, atochou o último pedaço de chocolate na boca e rumou para a
Torre da Grifinória.
Corvinal
jogou contra Sonserina uma semana depois do inicio do semestre.
Sonserina ganhou, mas foi uma vitória apertada.
Segundo Olívio,
isto era uma boa notícia para Grifinória, que tiraria o segundo lugar
se também batesse Corvinal. Portanto, o capitão aumentou o número de
treinos para cinco por semana. Isto significou que com as aulas
antidementadores de Lupin, que em si eram mais exaustivas que os
treinos de Quadribol, só sobrara a Harry uma noite por semana para fazer
todos os deveres de casa. Ainda assim, ele não estava aparentando
tanto desgaste quanto Hermione, cuja imensa carga de trabalho parecia
estar finalmente cansando-a. Todas as noites, sem falta, Hermione era
vista a um canto da sala comunal, várias mesas cheias de livros,
tabelas de Aritmancia, dicionários de runas, diagramas de trouxas
levantando grandes objetos e ainda fichários e mais fichários de extensas
anotações; ela pouco falava com os colegas e respondia mal quando era
interrompida.
—
Como é que ela está fazendo isso? — murmurou Rony para Harry certa
noite, quando este se sentara para preparar uma redação difícil sobre
venenos indetectáveis pedida por Snape. Harry ergueu a cabeça. Mal
conseguiu divisar Hermione por trás da pilha instável de livros.
—
Isso o quê?
—
Assistindo a todas as aulas! — disse Rony. — Ouvi Mione conversando com a
Profª. Vector, aquela bruxa da Aritmancia, hoje de manhã. Estavam
discutindo a aula de ontem, mas Mione não podia ter estado lá, porque
estava conosco na de Trato das Criaturas Mágicas! E Ernesto McMillan me
disse que ela nunca faltou a nenhuma aula de Estudos dos Trouxas, mas
metade das aulas são no mesmo horário de Adivinhação, e ela também nunca
faltou a nenhuma lá!
Harry
não tinha tempo, naquele momento, para desvendar o mistério dos horários
impossíveis de Hermione; ele realmente precisava terminar o trabalho
para Snape. Dois segundos depois, no entanto, foi novamente
interrompido, desta vez por Olívio.
—
Más notícias Harry. Acabei de ir falar com a Profª. McGonagall sobre a
Firebolt. Ela... Hum... Foi um pouco
grossa comigo. Me disse que as minhas prioridades estavam trocadas.
Parece que entendeu que eu estava mais preocupado em ganhar a Taça do que
com as suas chances de sobrevivência. Só porque eu disse que não me
importava se a vassoura o derrubasse, desde que você apanhasse o pomo
primeiro. — Olívio sacudiu a cabeça, incrédulo. — Francamente, o jeito
como ela gritou comigo dava até para pensar que eu tinha dito alguma
coisa horrível.. Então perguntei quanto tempo mais ela ia ficar com a
vassoura... — Olívio amarrou a cara e imitou a voz severa da
professora: “O tempo que for preciso,
Wood"... Acho que está na hora de você encomendar uma vassoura
nova, Harry. Tem um formulário de pedido no final do Qual...
Vassoura... você podia comprar uma Nimbus 2001, como a do Malfoy.
—
Não vou comprar nada que Malfoy ache bom — disse Harry em tom definitivo.
Janeiro
transitou para fevereiro imperceptivelmente, sem alteração no frio extremo
que fazia. A partida contra Corvínal estava cada dia mais próxima, mas
Harry ainda não encomendara a vassoura nova. Ele agora pedia à Profª.
McGonagall notícias da Firebolt depois da aula de Transformação. Rony
parava, cheio de esperança, ao lado dele, Hermione passava depressa
com o rosto virado.
—
Não, Potter, ainda não posso devolvê-la — disse a professora na décima
segunda vez que isto aconteceu, antes mesmo que ele abrisse a boca para
perguntar. — Já a verificamos com relação à maioria dos feitiços comuns,
mas o Profº. Flitwíck acredita que a vassoura possa estar carregando um
Feitiço de Velocidade. Eu o informarei quando tivermos terminado a
verificação. Agora, por favor, pare de me pressionar.
Para
piorar as coisas, as aulas antidementadores não estavam correndo tão bem
quanto Harry esperara. Em várias sessões ele fora capaz de produzir um
vulto indistinto e prateado, todas as vezes que o dementador se
aproximara dele, mas era um Patrono demasiado fraco para afugentar o
dementador. A única coisa que fazia era pairar no ar, como uma nuvem
semitransparente, e esgotar a energia de Harry enquanto o garoto lutava
para mantê-lo presente. Harry sentiu raiva de si mesmo, e culpa pelo
desejo secreto de ouvir mais uma vez as vozes dos pais.
—
Você está esperando demais de si mesmo — disse o Profº. Lupin com
severidade, na quarta semana de treino. — Para um bruxo de treze anos, até
mesmo um Patrono pouco nítido é um grande feito. Você não está desmaiando
mais, não é?
—
Eu pensei que um Patrono... Transformasse os dementadores em alguma coisa
— disse Harry desanimado. — Fizesse-os desaparecer...
—
O verdadeiro Patrono de fato faz isso. Mas você já conseguiu muito em
pouquíssimo tempo. Se os dementadores aparecerem na sua próxima
partida de Quadribol, você poderá mantê-los à distância em
tempo suficiente para voltar ao chão.
—
O senhor disse que é mais difícil quando há um monte deles.
—
Tenho total confiança em você — respondeu Lupin sorrindo. — Tome... Você
mereceu uma bebida, uma coisa do Três Vassouras. Você não deve ter provado
antes...
O
professor tirou duas garrafinhas da maleta.
—
Cerveja amanteigada! — exclamou Harry sem pensar. — Ah, eu gosto disso!
Lupin
ergueu uma sobrancelha.
—
Ah... Rony e Hermione trouxeram para mim de Hogsmeade — mentiu Harry
depressa.
—
Entendo — disse Lupin, embora continuasse a parecer ligeiramente
desconfiado. — Bem... Vamos brindar à vitória de Grifinória sobre
Corvinal! Não que, como professor, eu deva tomar partido... — acrescentou
ele depressa.
Os
dois beberam a cerveja amanteigada em silêncio, até que Harry disse uma
coisa que o estava deixando intrigado havia algum tempo.
—
Que é que tem por baixo do capuz do dementador?
O
professor baixou a garrafinha pensativo.
—
Hummm... Bem, as únicas pessoas que realmente sabem não estão em condições
de nos responder. Veja, o dementador tira o capuz somente para usar sua
última arma, a pior.
—
Que é qual?
—
O Beijo do Dementador — disse Lupin
com um sorriso enviesado. — É o que dão naqueles que eles querem destruir
completamente. Suponho que devam ter algum tipo de boca sob o capuz,
porque ferram as mandíbulas na boca da vítima... E sugam sua alma.
Harry,
sem querer, cuspiu um pouco de cerveja amanteigada.
—
Quê... Eles matam...?
—
Ah, não — disse Lupin. — Fazem muito pior. A pessoa pode viver sem alma,
sabe, desde que o cérebro e o coração continuem trabalhando. Mas perde a
consciência do eu, a memória... Tudo. Não tem chance alguma de
se recuperar. Apenas... Existe. Como uma concha vazia. E a alma fica para sempre...
Perdida.
Lupin
bebeu mais um pouco da cerveja, depois continuou:
—
É o destino que espera Sirius Black. Li no Profeta Diário hoje de manhã, o
ministro deu aos dementadores permissão para fazerem isso se o
encontrarem.
Harry
ficou confuso por um instante com a idéia de alguém ter a alma sugada pela
boca. Mas depois pensou em Black.
—
Ele merece — disse de repente.
—
Você acha? — perguntou Lupin sem pensar muito. — Você acha mesmo que
alguém merece isso?
—
Acho — disse Harry resistindo. — Por... Causa de umas coisas...
Ele
gostaria de ter contado a Lupin a conversa que ouvira no Três Vassouras a
respeito de Black ter traído seus pais, mas isto teria implicado em
revelar que fora a Hogsmeade sem autorização, e ele sabia que o professor
não ia gostar nem um pouco disso. Então, terminou a cerveja
amanteigada, agradeceu a Lupin e deixou a sala de História da Magia.
Harry
gostaria de não ter perguntado o que havia por baixo do capuz de um
dementador, a resposta fora horrível, e ele ficou tão perdido em
considerações sobre o que seria ter a alma sugada que deu um encontrão na
Profª. Minerva no meio da escada.
—
Preste atenção por onde anda, Potter!
—
Desculpe, professora...
—
Estive agorinha mesmo procurando você na sala comunal da Grifinória. Bem,
tome aqui, fizemos tudo que pudemos imaginar, e parece que não há
nada errado com a vassoura. Você tem um ótimo amigo em algum lugar,
Potter...
O
queixo de Harry caiu. A professora estava lhe devolvendo a Firebolt, cujo
aspecto continuava magnífico como sempre fora.
—
Posso ficar com ela? — perguntou Harry com a voz fraca. — Sério?
—
Sério — disse a professora sorrindo. — Acho que você vai precisar pegar o
jeito dela antes da partida de sábado, não? E Potter... Faça força
para ganhar, sim? Ou vamos ficar fora do campeonato pelo oitavo ano
seguido, como o Profº. Snape teve a bondade de me lembrar ainda ontem à
noite...
Sem
fala, Harry carregou a Firebolt escada acima para a Torre da Grifinória.
Quando dobrou um canto, viu Rony, que corria ao seu encontro, rindo de
orelha a orelha.
—
Ela devolveu? Que maravilha! Escuta, posso dar aquela voltinha? Amanhã?
—
Claro... Qualquer coisa... — disse Harry seu coração mais leve do que
estivera naquele último mês. — Quer saber de uma coisa... Devíamos fazer
as pazes com a Mione... Ela só estava querendo ajudar...
—
Tudo bem — concordou Rony. — Ela está na sala comunal agora, estudando,
para variar...
Quando
entraram no corredor para a Torre da Grifinória, viram Neville Longbottom
insistindo com Sir Cadogan, que aparentemente se recusava a deixá-lo
entrar.
—
Eu anotei! — dizia Neville com voz de choro. — Mas devo ter deixado cair
em algum lugar!
—
Vou mesmo acreditar! — bradou Sir Cadogan. Depois, avistando Harry e Rony.
— Boa noite, meus valentes soldados! Venham meter este louco a
ferros. Ele está tentando entrar à força
nas câmaras interiores!
—
Ah, cala a boca — exclamou Rony quando ele e Harry emparelharam com
Neville.
—
Perdi a senha! — contou o garoto, infeliz. — Fiz Sir Cadogan me dizer
quais eram as senhas que ia usar esta semana, porque ele não pára de mudar
e agora não sei o que fiz com elas!
—
Odsbôdiquins — disse Harry a Sir
Cadogan, que ficou desapontadíssimo e, com relutância, girou o quadro para
a frente para deixá-los entrar na sala comunal. Houve um súbito murmúrio
de excitação em que todas as cabeças se viraram e, no
momento seguinte Harry foi cercado pelos colegas que exclamavam,
assombrados com a Firebolt.
—
Onde foi que você arranjou essa vassoura, Harry?
—
Deixa eu dar uma voltinha?
—
Você já andou nela, Harry?
—
Corvinal não vai ter a menor chance, o pessoal lá usa Cleansweep Sevens!
—
Me deixa só segurá-la um pouquinho, Harry?
Passados
uns dez minutos mais ou menos, durante os quais a Firebolt passou de mão
em mão, e foi admirada de todos os ângulos, a garotada se dispersou e Harry e
Rony puderam ver Hermione direito, a única pessoa que não tinha corrido ao
encontro dos garotos, curvada sobre seu trabalho, evitando encontrar
o olhar deles.
Harry
e Rony se aproximaram da mesa e finalmente Hermione ergueu a cabeça.
—
Me devolveram a vassoura — disse Harry, sorrindo para a amiga e erguendo a
Firebolt no ar.
—
Está vendo, Mione? Não havia nada errado com ela — disse Rony.
—
Bem... Mas podia ter havido! Quero dizer, pelo menos agora você sabe que
ela é segura!
—
É, suponho que sim — disse Harry. — É melhor eu ir guardá-la lá em cima...
—
Eu levo! — disse Rony ansioso. — Tenho que dar o tônico a Perebas.
Rony
apanhou a vassoura e, segurando-a como se fosse de vidro, levou-a escada
acima para o dormitório dos meninos.
—
Posso me sentar, então? — perguntou Harry a Hermione.
—
Suponho que sim — disse a garota, tirando uma grande pilha de pergaminhos
de uma cadeira.
Harry
deu uma olhada na mesa atravancada, no longo trabalho de Aritmancia em que
a tinta ainda estava molhada, no trabalho ainda mais longo de Estudos
dos Trouxas ("Explique por que
os trouxas precisam de eletricidade") e na tradução de runas em
que Hermione trabalhava agora.
—
Como é que você está conseguindo dar conta de tudo isso? — perguntou o garoto.
—
Ah, bem... Você sabe, trabalhando à beça. — De perto, Harry viu que ela
parecia quase tão cansada quanto Lupin.
—
Por que você não tranca algumas matérias? — perguntou o garoto,
observando-a erguer os livros para procurar o dicionário de runas.
—
Eu não poderia fazer isso! — respondeu Hermione, escandalizada.
—
Aritmancia parece horrível — comentou Harry, apanhando uma complicada
tabela numérica.
—
Ah, não, é maravilhosa! — respondeu Hermione séria. — É a minha matéria
favorita! É...
Mas
exatamente o que era maravilhoso na Aritmancia, Harry jamais chegou a
saber. Naquele exato momento, um grito estrangulado ecoou pela
escada do dormitório dos meninos. Todos na sala se calaram e olharam
petrificados para a subida. Então ouviram os passos apressados de Rony,
cada vez mais fortes... E em seguida ele apareceu, arrastando um lençol.
—
OLHA! — berrou ele, se dirigindo à mesa de Hermione. — OLHA! — berrou de novo,
sacudindo o lençol na cara da garota.
—
Rony, que...?
—
PEREBAS! OLHE! PEREBAS!
Hermione
procurava afastar o corpo, com uma expressão de total perplexidade. Harry
olhou para o lençol que Rony segurava. Havia alguma coisa vermelha nele.
Alguma
coisa que se parecia horrivelmente com...
—
SANGUE! — bradou Rony no silêncio de atordoamento que invadiu a sala. —
ELE DESAPARECEU! E SABE O QUE TINHA NO CHÃO?
—
N... Não — respondeu Hermione com a voz trêmula.
Rony
atirou uma coisa em cima da tradução de runas de Hermione. Ela e Harry se
curvaram para ver.
Em
cima das estranhas formas pontiagudas havia vários pêlos de
felino, compridos e amarelo-avermelhados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário