CAPÍTULO
DEZ
O
Mapa do Maroto
Madame
Pomfrey insistiu em
manter Harry na ala hospitalar pelo resto do fim de
semana. Ele não discutiu nem se queixou, mas não deixou jogarem no lixo os
estilhaços de sua Nimbus 2000. Sabia que era uma atitude burra, sabia que
a vassoura não tinha conserto, mas o sentimento era mais forte que ele;
era como se tivesse perdido um dos seus melhores amigos.
Uma
procissão de amigos veio visitá-lo, todos decididos a animá-lo.
Hagrid
lhe mandou um buquê de flores com lagartinhas, que pareciam repolhos
amarelos, e Gina Weasley, corando furiosamente, apareceu com um cartão de
votos de saúde, feito por ela mesma, que cantava com voz esganiçada a não
ser que Harry o guardasse fechado embaixo da fruteira. O time da
Grifinória tornou a visitar o companheiro no domingo de manhã, desta vez
em companhia de Olívio, que declarou a Harry (numa voz de
além-túmulo) que não o responsabilizava pela derrota. Rony e Hermione só
deixavam a cabeceira de Harry à noite. Mas nada que ninguém dissesse ou
fizesse conseguia fazê-lo se sentir melhor, porque eles só conheciam
metade das suas preocupações.
Ele
não contara a ninguém que vira o Sinistro, nem a Rony nem a Hermione,
porque sabia que o amigo entraria em pânico e a amiga caçoaria dele. O
fato era, no entanto, que o Sinistro agora já aparecera duas vezes e ambas
as aparições tinham sido seguidas por acidentes quase fatais; da
primeira vez Harry quase fora atropelado pelo Nôitibus Andante; da
segunda, levara uma queda da vassoura de quase quinze metros de altura.
Será que o Sinistro ia atormentá-lo até a morte?
Será
que ele, Harry, ia passar o resto da vida olhando por cima do ombro à
procura da fera?
Além
disso havia os dementadores. Harry sentia mal-estar e humilhação toda vez
que pensava neles. Todos diziam que os guardas eram medonhos,
mas ninguém desmaiava sempre que se aproximava deles. Ninguém mais
ouvia mentalmente os ecos da morte dos pais.
Isto
porque agora Harry sabia a quem pertencia a tal voz. Ouvira o que ela
dizia, ouvira-a continuamente nas longas noites passadas na ala hospitalar
quando ficava acordado, contemplando as listras que o luar formava no
teto.
Quando
os dementadores se aproximavam, ele ouvia os últimos instantes de vida de
sua mãe, sua tentativa de proteger o filho da sanha de Lord Voldemort e a
gargalhada do bruxo antes de matá-la... Harry dava breves cochilos,
mergulhando em sonhos cheios de mãos podres e pegajosas e súplicas
fossilizadas, acordando de repente para voltar a pensar na voz da mãe.
Foi
um alívio voltar à zoeira e à atividade da escola principal
na segunda-feira, e ser forçado a pensar em outras coisas, ainda que
tivesse de aturar a implicância de Draco Malfoy. O garoto não cabia
em si de alegria com a derrota da Grifinória. Retirara finalmente as
bandagens e comemorava a circunstância de poder usar os dois braços
novamente, fazendo espirituosas imitações de Harry caindo da vassoura.
Malfoy passou a maior parte da aula seguinte de Poções, a que assistiram
juntos na masmorra, fazendo imitações dos dementadores; Rony finalmente
se descontrolou e atirou um enorme e gosmento coração de crocodilo
em Malfoy, que o atingiu no rosto, o que fez Snape descontar
cinqüenta pontos da Grifinória.
—
Se Snape vier dar aula de Defesa contra as Artes das Trevas de novo, vou
me mandar — anunciou Rony quando seguiam para a classe de Lupin depois do
almoço. — Vê quem está lá, Mione.
A
garota espiou pela porta da sala.
—
Tudo bem!
O
Profº. Lupin voltara ao trabalho. Sem dúvida tinha a aparência de quem
estivera doente. Suas vestes velhas estavam mais frouxas e havia olheiras
escuras sob seus olhos; ainda assim, ele sorriu para os garotos que
ocupavam seus lugares na classe e, em seguida, desataram a se queixar do
comportamento de Snape na ausência de Lupin.
—
Não é justo, ele estava só substituindo o senhor, por que passou dever de
casa?
—
Não sabemos nada de Lobisomens...
—
Dois rolos de pergaminho!
—
Vocês disseram ao Profº. Snape que ainda não estudamos Lobisomens? — perguntou Lupin, franzindo
ligeiramente a testa.
A
balbúrdia tornou a encher a sala.
—
Dissemos, mas ele respondeu que estávamos muito atrasados...
—
Ele não quis ouvir..
—
Dois rolos de pergaminho!
O
Profº. Lupin sorriu ao ver a expressão indignada nos rostos dos alunos.
—
Não se preocupem. Vou falar com o Profº. Snape. Não precisam fazer a
redação.
—
Ah, não! — exclamou Hermione, muito desapontada. — Já terminei a minha.
Tiveram
uma aula muito gostosa. O Profº. Lupin trouxera uma caixa de vidro
contendo um hinkypunk, uma
criaturinha de uma perna só, que parecia feita de fiapos de fumaça, a
aparência frágil e inofensiva.
—
O hinkypunk atrai os viajantes para
os brejos — informou o professor enquanto os garotos faziam anotações. —
Vocês repararam na lanterna que ele traz pendurada na mão? Ele salta
para frente... A pessoa acompanha a luz... Então...
A
criatura fez um horrível barulho de sucção contra o vidro da caixa.
Quando
a sineta tocou, todos guardaram o material e se dirigiram para a porta,
Harry entre eles, mas...
—
Espere um instante, Harry — chamou Lupin. — Gostaria de dar uma palavrinha
com você.
Harry
deu meia-volta e observou o professor cobrir a caixa do hinkypunk com um pano.
—
Soube do que houve no jogo — disse Lupin, virando-se para sua escrivaninha
e começando a guardar os livros na maleta — e sinto muito pelo acidente com
a sua vassoura. Há alguma possibilidade de consertá-la?
—
Não — respondeu Harry. — A árvore arrebentou-a em mil pedacinhos.
Lupin
suspirou.
—
Plantaram o Salgueiro Lutador no ano em que cheguei em Hogwarts. Os alunos
costumavam brincar de tentar se aproximar do tronco e tocar a árvore com a
mão. No fim, um garoto chamado Davi Gudgeon quase perdeu um olho e fomos
proibidos de chegar perto do salgueiro. Uma vassoura não teria a
menor chance.
—
O senhor soube dos dementadores também? — perguntou Harry com dificuldade.
Lupin
lançou um olhar rápido a Harry.
—
Soube. Acho que nenhum de nós tinha visto o Profº. Dumbledore tão
aborrecido. Há algum tempo, eles estão ficando inquietos... Furiosos com a
recusa do diretor de deixar que entrem na propriedade... Suponho que
tenham sido eles a razão da sua queda.
—
Foram. — Harry hesitou e, então, a pergunta que queria fazer escapou de
sua boca antes que pudesse contê-la. — Por quê? Por que eles me afetam
desse jeito? Será que sou apenas....
—
Não tem nada a ver com fraqueza — respondeu o professor depressa, como se
tivesse lido o pensamento de Harry. — Os dementadores afetam você pior do
que os outros porque existem horrores no seu passado que não existem no
dos outros.
Um
raio de sol de inverno entrou na sala, iluminando os cabelos grisalhos de
Lupin e os traços do seu rosto jovem.
—
Os dementadores estão entre as criaturas mais malignas que vagam pela
Terra. Infestam os lugares mais escuros e imundos, se comprazem com a
decomposição e o desespero, esgotam a paz, a esperança e a felicidade do
ar à sua volta. Até os trouxas sentem a presença deles, embora não possam
vê-los. Chegue muito perto de um dementador e todo bom sentimento, toda
lembrança feliz serão sugados de você. Se puder, o dementador se
alimentará de você o tempo suficiente para transformá-lo em um
semelhante... Desalmado e mau. Não deixará nada em você exceto as piores
experiências de sua vida. E o pior que aconteceu com você, Harry, é
suficiente para fazer qualquer um cair da vassoura. Você não tem do que se
envergonhar.
—
Quando eles chegam perto de mim... — Harry fixou o olhar na mesa de Lupin,
sentindo um nó na garganta —, ouço Voldemort assassinando minha mãe.
Lupin
fez um movimento repentino com o braço como se fosse segurar o ombro de
Harry, mas pensou melhor. Houve um momento de silêncio, depois...
—
Por que é que eles tinham que ir ao jogo? — exclamou o garoto amargurado.
—
Estão ficando famintos — disse Lupin tranquilamente, fechando a maleta com
um estalo. — Dumbledore não permite que eles entrem na escola,
então o suprimento de gente com que contavam secou... Acho que eles
não conseguiram resistir à multidão em torno do campo de Quadribol. Toda
a excitação... As emoções exacerbadas... É a idéia que fazem de um
banquete.
—
Azkaban deve ser horrível — murmurou Harry.
Lupin concordou,
sério.
—
A fortaleza foi construída em uma ilhota, bem longe da costa, mas não
precisam de paredes nem de água para manter os prisioneiros confinados,
não quando eles já estão presos dentro da própria cabeça, incapazes de
um único pensamento agradável. A maioria enlouquece em poucas semanas.
—
Mas Sirius Black escapou — comentou Harry lentamente. — Fugiu...
A
maleta de Lupin escorregou da escrivaninha; ele teve que se abaixar
depressa para apanhá-la no ar.
—
É — disse se endireitando. — Black deve ter encontrado uma maneira de
combatê-los. Eu não teria acreditado que isto fosse possível... Dizem que
os dementadores esgotam os poderes de um bruxo que conviver um tempo
demasiado longo com eles...
—
O senhor fez aquele dementador no trem recuar — disse Harry de repente.
—
Há... Certas defesas que se pode usar — disse Lupin. — Mas no trem havia
apenas um dementador. Quanto maior o número, mais difícil é resistir a
eles.
—
Que defesas? — perguntou Harry em seguida. — O senhor pode me ensinar?
—
Não tenho a pretensão de ser um especialista no combate a dementadores,
Harry... Muito ao contrário...
—
Mas se os dementadores forem a outro jogo de Quadribol, preciso saber
lutar contra eles...
Lupin
avaliou o rosto decidido de Harry, hesitou, depois disse:
—
Bem... Está bem. Vou tentar ajudar. Mas receio que você terá de esperar
até o próximo trimestre. Tenho muito que fazer antes das férias. Escolhi
uma hora muito inconveniente para adoecer.
Com
a promessa de receber aulas antidementadores de Lupin, o pensamento de que
talvez não precisasse mais ouvir a morte da mãe, e o fato de que Corvinal
esmagara Lufa-Lufa na partida de Quadribol no final de novembro, o ânimo
de Harry deu uma guinada definitiva para cima. Afinal, Grifinória não
fora eliminada da competição, embora o time não pudesse se dar ao luxo de
perder mais uma partida. Olívio tornou a ficar possuído por uma energia
obsessiva, e treinou com o time com mais empenho que nunca, na chuvinha
gélida e nevoenta que persistiu até dezembro. Harry não viu nem sinal
de dementador nos terrenos da escola. A fúria de Dumbledore parecia
ter funcionado para mantê-los em seus postos nas entradas.
Duas
semanas antes do fim do trimestre, o céu clareou de repente até atingir um
branco leitoso e ofuscante, e os terrenos enlameados da escola
amanheceram, certo dia, cobertos de cintilante geada. No interior do
castelo, havia um rebuliço de Natal no ar. Flitwick, o professor de
Feitiços, já enfeitara sua sala de aula com luzes pisca-piscas que, quando
foram ver, eram fadinhas voadoras de verdade. Os alunos estavam
satisfeitos discutindo planos para as férias de Natal. Tanto
Rony quanto Hermione haviam decidido permanecer em Hogwarts e, embora
Rony dissesse que era porque não ia conseguir aturar Percy duas
semanas, e Hermione insistisse que precisava consultar a biblioteca, Harry
não se deixou enganar; sabia que era para lhe fazerem companhia e se sentiu
muito grato.
Para
alegria de todos, exceto Harry, houve mais uma visita a Hogsmeade no
último fim de semana do trimestre.
—
Podemos fazer todas as nossas compras de Natal lá! — exclamou Hermione. —
Mamãe e papai iriam adorar receber fios dentais de menta da Dedosdemel!
Resignado
com a idéia de que seria o único aluno do terceiro ano a não ir, Harry
pediu emprestado a Olívio o livro Qual Vassoura, e resolveu passar o
dia lendo sobre as diferentes marcas. Ele andara montando uma vassoura
da escola nos treinos do time, uma velhíssima Shooting Star, que
era demasiado lenta e instável; decididamente precisava de uma vassoura
nova.
Na
manhã de sábado em que os colegas iriam a Hogsmeade, Harry se despediu de
Rony e Hermione, embrulhados em capas e cachecóis, tornou a subir a
escadaria de mármore, sozinho, e tomou o caminho da Torre da Grifinória. A
neve começara a cair do lado de fora das janelas e o castelo estava
muito parado e silencioso.
—
Psiu... Harry!
Ele
se virou, a meio caminho do corredor do terceiro andar, e viu Fred e Jorge
espiando-o atrás da estátua de uma bruxa corcunda, de um olho só.
—
Que é que vocês estão fazendo? — perguntou Harry, curioso.
—
Vocês não vão a Hogsmeade?
—
Antes de ir viemos fazer uma festinha para animar você — disse Fred, com
uma piscadela misteriosa. — Venha até aqui...
O
garoto indicou com a cabeça uma sala de aula vazia, à esquerda da estátua
de um olho só. Harry acompanhou os gêmeos. Jorge fechou a porta sem fazer
barulho e se virou, sorrindo, para Harry.
—
Presente de Natal antecipado para você, Harry — anunciou.
Fred
tirou alguma coisa de dentro da capa com um gesto largo e colocou-a em
cima de uma carteira. Era um pedaço de pergaminho, grande, quadrado e
muito gasto, sem nada escrito na superfície. Harry, desconfiando que fosse
uma daquelas brincadeiras de Fred e Jorge, ficou parado olhando para o presente.
—
E o que é que é isso? — perguntou.
—
Isso, Harry, é o segredo do nosso sucesso — disse Jorge, dando uma
palmadinha carinhosa no pergaminho.
—
Dói na gente dar esse presente para você — disse Fred —, mas decidimos, na
noite passada, que você precisa muito mais dele do que nós. E, de qualquer
maneira, já o conhecemos de cor. É uma herança que vamos lhe deixar. Para
falar a verdade, não precisamos mais dele.
—
E para que eu preciso de um pedaço de pergaminho velho? — perguntou Harry.
—
Um pedaço de pergaminho velho! — exclamou Fred, fechando os olhos com
uma careta, como se Harry o tivesse ofendido mortalmente. — Explique
a ele Jorge.
—
Bem... Quando estávamos no primeiro ano, Harry... Jovens, descuidados e
inocentes...
Harry
abafou uma risada. Duvidava se algum dia os gêmeos teriam sido inocentes.
—
Bem, mais inocentes do que somos hoje... Nos metemos numa certa confusão
com Filch.
—
Soltamos uma bomba de bosta no corredor e por alguma razão ele ficou
aborrecido...
—
Então Filch nos arrastou até a sala dele e começou a nos ameaçar com os
castigos de costume...
—
... Detenção...
—
... Nos arrancar as tripas...
—
... E não pudemos deixar de reparar numa gaveta do arquivo dele em que
estava escrito Confiscado e Muito Perigoso.
—
Não precisam continuar... — exclamou Harry, começando a sorrir.
—
Bem, que é que você teria feito? — perguntou Fred. — Jorge soltou mais uma
bomba de bosta para distrair Filch, eu abri depressa a gaveta e tirei...
Isto.
—
Não foi tão desonesto quanto parece, sabe — comentou Jorge.
—
Calculamos que Filch nunca tivesse descoberto como usar o pergaminho.
—
Mas, provavelmente suspeitou o que era ou não o teria confiscado.
—
E vocês sabem como usar?
—
Ah, sabemos — disse Fred, rindo. — Esta jóia nos ensinou mais do que todos
os professores da escola.
—
Vocês estão me gozando — disse Harry, olhando para o pedaço velho e
rasgado de pergaminho.
—
Ah, é? — disse Jorge.
Ele
apanhou a varinha, tocou o pergaminho de leve e disse:
— “Juro solenemente que não pretendo
fazer nada de bom”.
Na
mesma hora, linhas de tinta muito finas começaram a se espalhar como uma
teia de aranha a partir do ponto em que a varinha de Jorge tocara. Elas
convergiram, se cruzaram, se abriram como um leque para os quatro cantos
do pergaminho; em seguida, no alto, começaram a aflorar palavras, palavras grandes,
floreadas, verdes, que diziam:
Os Srs. Aluado, Rabicho, Almofadinha e
Pontas, fornecedores de recursos para bruxos malfeitores, têm a honra
de apresentar “O MAPA DO MAROTO”.
Era
um mapa que mostrava cada detalhe dos terrenos do castelo de Hogwarts. O
mais notável, contudo, eram os pontinhos mínimos de tinta que se moviam em
torno do mapa, cada um com um rótulo em letra minúscula. Pasmo, Harry se
curvou para examinar melhor. Um pontinho, no canto superior esquerdo,
mostrava que o Profº. Dumbledore estava andando para lá e para
cá em seu escritório; a gata do zelador, Madame Nor-r-ra, rondava o
segundo andar; e Pirraça, o poltergeist, naquele momento
saltitava pela sala de troféus. E quando os olhos de Harry percorreram
os corredores que tão bem conhecia, ele notou mais uma coisa.
O
mapa mostrava um conjunto de passagens em que ele nunca entrara. E muitas
pareciam levar...
—
... Diretamente a Hogsmeade — disse Fred, acompanhando uma delas com o
dedo. — São sete ao todo. Até agora Filch conhece essas quatro — ele as
apontou —, mas temos certeza de que somente nós conhecemos estas outras.
Não se preocupe com a passagem por trás do espelho no quarto andar. Nós a
usamos até o inverno passado, mas já desabou, está completamente
bloqueada. E achamos que ninguém jamais usou esta porque o Salgueiro
Lutador foi plantado bem em cima da entrada. Mas, esta outra aqui
leva diretamente ao porão da Dedosdemel. Nós já a usamos um monte
de vezes. E como você talvez tenha notado, a entrada é bem ali do lado
de fora da sala, na corcunda daquela velhota de um olho só.
—
Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas — suspirou Jorge, dando um tapinha
no cabeçalho do mapa. — Devemos tanto a eles.
—
Almas nobres, que trabalharam incansavelmente para ajudar novas gerações
de transgressores — disse Fred solenemente.
—
Certo — acrescentou Jorge depressa. — Não se esqueça de limpar o mapa
depois de usá-lo...
—
... Senão qualquer um pode ler — recomendou Fred.
—
É só bater com a varinha mais uma vez e dizer "Malfeito feito!", e o pergaminho torna a ficar
branco.
—
Portanto, jovem Harry — disse Fred, numa incrível imitação de Percy —,
trate de se comportar.
—
Vejo você na Dedosdemel — despediu-se Jorge, piscando.
Os
gêmeos deixaram a sala, sorrindo satisfeitos consigo mesmos.
Harry
ficou ali, contemplando o mapa milagroso. Acompanhou o pontinho de tinta
Madame Nor-r-ra virar à esquerda e parar para cheirar alguma coisa no
chão. Se Filch realmente não conhecia... Ele não teria que passar pelos
dementadores...
Mas
mesmo enquanto continuava ali, transbordante de excitação, uma coisa que
ouvira, certa vez, o Sr. Weasley dizer aflorou em sua lembrança.
“Nunca confie em nada que é capaz de
pensar, se você não pode ver onde fica o seu cérebro”.
O
mapa era um daqueles objetos mágicos perigosos sobre os quais o Sr.
Weasley o prevenira... Recursos para bruxos malfeitores... Mas então,
raciocinou Harry, ele só queria usar o mapa para ir a Hogsmeade, não era
que quisesse roubar alguma coisa ou atacar alguém... E Fred e Jorge já o usavam
havia anos, sem que nada de terrível tivesse acontecido...
Harry
acompanhou com o dedo a passagem secreta até a Dedosdemel.
Depois,
subitamente, como se obedecesse a uma ordem, enrolou o mapa, guardou-o nas
vestes e correu para a porta da sala de aula. Abriu-a uns dedinhos.
Não havia ninguém do lado de fora. Com muito cuidado, esgueirou-se da
sala até as costas da estátua da bruxa de um olho só.
Que
era mesmo que devia fazer? Puxou outra vez o mapa e viu, para seu espanto,
que um novo boneco de tinta aparecera no pergaminho, rotulado Harry
Potter.
Estava
parado exatamente no mesmo lugar que o verdadeiro Harry, mais ou menos na
metade do corredor do terceiro andar. Harry observou-o atentamente. Seu
pequeno eu de tinta parecia estar tocando a bruxa com uma varinha mínima. O garoto
na mesma hora puxou a varinha real e deu um toque na estátua.
Nada aconteceu. Ele tornou a consultar o mapa. Um balão com um texto
aparecera ao lado do seu boneco. Dentro do balão havia a palavra "Dissendium”.
—
Dissendium! — sussurrou Harry dando
uma nova batida na bruxa de pedra.
Na
mesma hora, a corcunda da estátua se abriu o suficiente para admitir uma
pessoa bem magra. Harry deu uma espiada rápida nos dois lados do corredor,
guardou outra vez o mapa, se içou de cabeça para dentro do buraco e deu
um impulso para frente.
Ele
deslizou um bom pedaço, descendo o que parecia um escorrega de pedra e
aterrissou na terra úmida e fria. Levantou-se, então, olhando a toda
volta. Estava escuro como breu. Harry ergueu a varinha e murmurou:
—
Lumus! — E pôde ver que se encontrava
em uma passagem muito estreita, baixa e terrosa. Ergueu, então, o mapa,
tocou-o com a ponta da varinha e disse baixinho: — Malfeito feito! — O mapa ficou
imediatamente branco. Ele o dobrou cuidadosamente, enfiou-o dentro das
vestes, depois, o coração batendo rápido, ao mesmo tempo excitado e
apreensivo, Harry começou a andar.
A
passagem virava e tornava a virar, mais parecendo uma toca de coelho
gigante do que qualquer outra coisa. Harry caminhou depressa por ela,
tropeçando aqui e ali no chão acidentado, segurando a varinha com firmeza
à sua frente.
Levou
uma eternidade, mas o garoto tinha o pensamento fixo na capacidade da
Dedosdemel repor suas forças. Depois do que lhe pareceu uma hora, a
passagem começou a subir. Ofegante, Harry apertou o passo, o rosto quente,
os pés muito gelados.
Dez
minutos mais tarde, chegou ao pé de uns degraus de pedra muito gastos, que
subiam a perder de vista. Tomando cuidado para não fazer barulho, Harry
começou a subir. Cem degraus, duzentos degraus, perdeu a conta, olhando
para os pés... Então, sem aviso, sua cabeça bateu em alguma coisa dura.
Parecia
um alçapão. Harry ficou parado ali, massageando o cocuruto da cabeça,
apurando os ouvidos. Não conseguia ouvir nenhum som em cima. Muito
devagarinho, empurrou o alçapão e espiou pela borda.
Deparou
com um porão, cheio de caixotes e caixas. Harry subiu pelo alçapão e
tornou a fechá-lo. Ele se fundiu tão
perfeitamente com o soalho empoeirado que era impossível saber que
estava ali. O garoto avançou lentamente até a escada de madeira que levava
ao andar superior. Agora decididamente conseguia ouvir vozes, para
não falar no tilintar de uma sineta e no abre e fecha de uma porta.
Pensando
no que deveria fazer, Harry, de repente, ouviu uma porta se abrir muito
próximo; alguém ia descer a escada.
—
E traga mais uma caixa de lesmas gelatinosas, querido, eles praticamente
levaram tudo... — disse uma voz feminina.
Dois
pés desceram a escada. Harry pulou para trás de um enorme caixote e
esperou os passos se distanciarem. Ouviu o homem deslocando caixas na
parede oposta.
Talvez
não tivesse outra oportunidade...
Rápida
e silenciosamente, o garoto saiu abaixado do esconderijo e subiu as
escadas; ao olhar para trás, viu um enorme traseiro e uma careca
reluzente enfiada em uma caixa. Harry alcançou a porta no patamar da
escada, escapuliu por ela e se encontrou atrás do balcão da Dedosdemel,
abaixou-se, saiu quietinho de lado e por fim se levantou.
A
Dedosdemel estava tão cheia de alunos de Hogwarts que ninguém olhou duas
vezes para Harry. O garoto foi passando entre eles, olhando para os lados
e reprimiu uma risada só de imaginar a expressão que apareceria na cara de
porco do Duda se pudesse ver onde ele estava agora.
Havia
prateleiras e mais prateleiras de doces com a aparência mais apetitosa que
se pode imaginar. Tabletes de nugá, quadrados cor-de-rosa de sorvete de
coco, caramelos cor de mel; centenas de tipos de bombons em fileiras
arrumadinhas; havia uma barrica enorme de feijõezinhos de todos os
sabores, Delícias gasosas — as tais bolas de sorvete de fruta que faziam
levitar que Rony mencionara —, em outra parede havia os doces de
"efeitos especiais": os melhores chicles de baba e bola
(que enchiam a loja de bolas azulonas e se recusavam a estourar durante
dias), o estranho e quebradiço fio dental de menta, minúsculos Diabinhos
negros de pimenta ("sopre fogo
em seus amigos!"), Ratinhos de sorvete ("ouça seus dentes baterem e rangerem!"), Sapos de creme
de menta ("faça sua barriga
saltar para valer!"), frágeis penas de algodão-doce e bombons
explosivos.
Harry
se espremeu entre os alunos do sexto ano que enchiam a loja e viu um
letreiro pendurado no canto mais distante do salão (SABORES INCOMUNS).
Rony e Hermione estavam bem embaixo, examinando uma bandeja de pirulitos
com gosto de sangue. Harry, sorrateiramente, foi parar atrás dos dois.
—
Eca, não, Harry não vai querer esses, são para vampiro, imagino — ia
dizendo Hermione.
—
E esses aqui? — perguntou Rony, enfiando um vidro de cachos de barata
embaixo do nariz de Hermione.
—
Decididamente não — disse Harry.
Rony
quase deixou cair o vidro.
—
Harry! — berrou Hermione. — Que é que você está fazendo aqui? Como... Foi
que você...?
—
Uau! — exclamou Rony, parecendo muito impressionado —, você aprendeu a
aparatar!
—
Claro que não aprendi. — Harry baixou a voz de modo que nenhum dos alunos
de sexto ano pudesse ouvir e contou aos amigos sobre o Mapa do Maroto.
—
Como é que Fred e Jorge nunca me deram esse mapa? — perguntou Rony
indignado. — Eu sou irmão deles!
—
Mas Harry não vai ficar com o mapa! — afirmou Hermione como se a idéia
fosse ridícula. — Vai entregá-lo à Profª. Minerva, não é Harry?
—
Não, não vou não! — disse Harry.
—
Você é maluca? — exclamou Rony, arregalando os olhos para a garota. —
Entregar uma coisa boa dessas?
—
Se eu entregar, vou ter que contar onde foi que o arranjei. Filch ia saber
que Fred e Jorge surrupiaram dele!
—
Mas e o Sirius Black? — sibilou Hermione. — Ele poderia estar usando uma
das passagens do mapa para entrar no castelo! Os professores têm que
saber disso!
—
Ele não pode estar entrando por uma passagem — retrucou Harry depressa. —
Tem sete túneis secretos no mapa, certo? Fred e Jorge calculam que
Filch conheça uns quatro. E os outros três... Um desabou, de modo que
ninguém pode passar. Outro tem o Salgueiro Lutador plantado na entrada,
portanto, não se pode sair. E este que eu usei para chegar aqui... Bem...
É realmente difícil ver a entrada dele no porão. Então, a não ser que
Black soubesse que havia uma passagem...
Harry
hesitou. E se Black soubesse que havia uma passagem ali? Rony, porém,
pigarreou querendo sinalizar alguma coisa e apontou para um aviso colado
dentro da loja de doces.
POR ORDEM DO
MINISTÉRIO DA MAGIA
Lembramos aos nossos
clientes que até nova ordem, os dementadores irão patrulhar as ruas de
Hogsmeade todas as noites após o pôr-do-sol. A medida visa garantir a
segurança dos habitantes de Hogsmeade e será revogada quando Sirius Black
for recapturado, portanto, é aconselhável que os clientes encerrem
suas compras bem antes de anoitecer.
Feliz Natal.
—
Estão vendo só? — falou Rony em voz baixa. — Eu gostaria de ver
Black tentar entrar na Dedosdemel com dementadores pululando por todo
o povoado. Em todo o caso, Hermione, os donos da Dedosdemel ouviriam
se alguém arrombasse a loja, não? Eles moram no primeiro andar!
—
Tá, mas... Mas... — A garota parecia estar fazendo força para encontrar
outro argumento. — Olha, ainda assim Harry não devia ter vindo a
Hogsmeade. Ele não tem autorização! Se alguém descobrir, ele vai ficar
enrascado até as orelhas! E ainda não anoiteceu... E se Sirius Black
aparecer hoje? Agora?
—
Ia ter muito trabalho para encontrar Harry no meio disso aí — disse Rony
indicando com a cabeça as janelas de caixilhos, pelas quais se via a
nevasca rodopiando lá fora. — Vamos, Mione, é Natal. Harry merece uma
folga.
Hermione
mordeu o lábio, parecendo extremamente preocupada.
—
Você vai me denunciar? — perguntou Harry à amiga, sorrindo.
—
AI... Claro que não... Mas sinceramente, Harry...
—
Viu as delícias gasosas, Harry? — perguntou Rony, puxando Harry e
levando-o até a barrica em que se encontravam. — E as lesmas gelatinosas?
E os picolés ácidos? Fred me deu um desses quando eu tinha sete anos, fez
um furo que atravessou a minha língua. Me lembro da mamãe pegando a
vassoura e baixando o pau nele. — Rony ficou mirando, pensativo, a
caixa de picolés ácidos. — Você acha que Fred comeria um cacho de baratas
se eu dissesse a ele que era amendoim?
Depois
que Rony e Hermione pagaram por todos os doces que compraram, os três
saíram da Dedosdemel para enfrentar a nevasca lá fora.
Hogsmeade
parecia um cartão de Natal; as casas e lojas de telhado de colmo estavam
cobertas por uma camada de neve fresca; havia coroas de azevinho nas
portas e fieiras de luzes encantadas penduradas nas árvores.
Harry
estremeceu; ao contrário dos amigos, ele não estava usando casaco. Os três
saíram caminhando pela rua, a cabeça abaixada contra o vento, Rony e
Hermione gritando por dentro dos cachecóis.
—
Ali é o Correio...
—
A Zonko"s fica mais adiante.
—
Podíamos ir até a Casa dos Gritos...
—
Vamos fazer o seguinte — sugeriu Rony com os dentes batendo —, vamos tomar
uma cerveja amanteigada no Três Vassouras?
Harry
estava mais do que a fim; havia um vento cortante e suas mãos estavam
congelando. Então, eles atravessaram a rua e minutos depois entravam na
minúscula estalagem.
A
sala estava cheíssima, barulhenta, quente e enfumaçada.
Uma
mulher tipo violão, com um rosto bonito, estava servindo um grupo
de bruxos desordeiros no bar.
—
Aquela é a Madame Rosmerta — disse Rony. — Vou pegar as bebidas, está bem?
— acrescentou, corando ligeiramente.
Harry
e Hermione foram até o fundo do salão, onde havia uma mesinha desocupada
entre uma janela e uma bela árvore de Natal próxima à lareira. Rony
voltou em cinco minutos, trazendo três canecas espumantes de
cerveja amanteigada.
—
Feliz Natal! — desejou ele alegremente, erguendo a caneca.
Harry
bebeu com gosto. Era a coisa mais deliciosa que já provara e parecia
aquecer cada pedacinho dele, de dentro para fora.
Uma
brisa repentina despenteou seus cabelos. A porta do Três Vassouras tornou
a se abrir. Harry olhou por cima da borda da caneca e se engasgou.
Os
professores McGonagall e Flitwick tinham acabado de entrar no bar em meio
a uma rajada de flocos de neve, seguidos de perto por Hagrid, que vinha
absorto em uma conversa com um homem corpulento de chapéu-coco verde-limão
e uma capa de risca de giz — Cornélio Fudge, Ministro da Magia.
Numa
fração de segundo, Rony e Hermione, ao mesmo tempo, tinham posto as mãos
na cabeça de Harry e feito o amigo escorregar do banquinho para baixo da
mesa.
Pingando
cerveja amanteigada e se encolhendo para sumir de vista, Harry, agarrado à
caneca, espiou os pés dos professores e de Fudge caminharem até o bar,
pararem e, em seguida, darem meia-volta e se dirigirem para onde ele
estava.
Em
algum lugar acima de sua cabeça, Hermione sussurrou:
—
Mobiliarbus!
A
árvore de Natal ao lado da mesa se ergueu alguns centímetros do chão,
flutuou de lado e desceu com um baque suave bem diante da mesa
dos garotos, escondendo-os dos professores. Espiando por entre os
ramos mais baixos e densos, Harry viu quatro conjuntos de pés de cadeira
se afastarem da mesa bem ao lado, depois ouviu os resmungos e
suspiros dos professores e do ministro ao se sentarem.
Em
seguida, ele viu mais um par de pés, usando saltos altos, turquesa,
cintilantes, e ouviu uma voz de mulher.
—
Uma água de Gilly pequena...
—
É minha — disse a voz da Profª. Minerva.
—
A jarra de quentão...
—
Obrigado — disse Hagrid.
—
Soda com xarope de cereja, gelo e guarda-sol...
—
Hummm! — exclamou o Profº. Flitwick estalando os lábios.
—
Para o senhor é o rum de groselha, ministro.
—
Obrigado, Rosmerta, querida — disse a voz de Fudge. — É um prazer revê-la,
devo dizer. Não quer nos acompanhar? Venha se sentar conosco...
—
Bem, muito obrigada, ministro.
Harry
acompanhou os saltos cintilantes se afastarem e retornarem.
Seu
coração batia incomodamente na garganta. Por que não lhe ocorrera que este
era o último fim de semana do trimestre também para os professores? E
quanto tempo eles ficariam sentados ali? Ele precisava de tempo para
voltar discretamente à Dedosdemel, se quisesse estar na escola ainda
aquela noite... A perna de Hermione deu uma tremida nervosa perto dele.
—
Então, o que é que o traz a esse fim de mundo, ministro? — perguntou a voz de
Madame Rosmerta.
Harry
viu a parte de baixo do corpo de Fudge se virar na cadeira, como se
verificasse se havia alguém escutando. Depois respondeu em voz baixa:
—
Quem mais se não Sirius Black? Imagino que você deve ter sabido o que
houve em Hogwarts no Dia das Bruxas?
—
Para falar a verdade, ouvi um boato — admitiu Madame Rosmerta.
—
Você contou ao bar inteiro, Hagrid? — perguntou a Profª. Minerva,
exasperada.
—
O senhor acha que Black continua por aqui, ministro? — perguntou Madame
Rosmerta.
—
Tenho certeza — respondeu Fudge laconicamente.
—
O senhor sabe que os dementadores já revistaram o meu bar duas vezes? —
falou Madame Rosmerta, com uma ligeira irritação na voz. — Espantaram
todos os meus fregueses... Isto é muito ruim para o comércio, ministro.
—
Rosmerta, querida, gosto tanto deles quanto você — disse
Fudge, constrangido. — É uma precaução necessária... Infelizmente,
mas veja só... Acabei de encontrar alguns. Estão furiosos
com Dumbledore porque ele não os deixa entrar nos terrenos da escola.
—
É claro que não — disse a Profª. Minerva, rispidamente. — Como é que vamos
ensinar com aqueles horrores por todo o lado?
—
Apoiado, apoiado! — exclamou o Profº. Flitwick com voz esganiçada, os pés
balançando a um palmo do chão.
—
Mesmo assim — disse Fudge em tom de dúvida —, eles estão aqui para
proteger vocês todos de coisa muito pior... Nós todos sabemos o que Black
é capaz de fazer..
—
Sabem, eu ainda acho difícil acreditar — disse
Madame Rosmerta pensativamente. — De todas as pessoas que passaram
para o lado das trevas, Sirius Black é o último em que eu pensaria...
Quero dizer, eu me lembro dele quando era garoto em Hogwarts. Se alguém
tivesse me dito, então, no que ele iria se transformar, eu teria
respondido que a pessoa tinha bebido quentão demais.
—
Você não conhece nem metade do que ele fez Rosmerta — disse Fudge com
impaciência. — A maioria nem sabe o pior.
—
Pior? — exclamou Madame Rosmerta, a voz animada de curiosidade. — O senhor
quer dizer pior do que matar todos aqueles coitados?
—
Isso mesmo.
—
Não posso acreditar. Que poderia ser pior?
—
Você diz que se lembra dele em Hogwarts, Rosmerta — murmurou a Profª.
Minerva. — Você se lembra quem era o melhor amigo dele?
—
Claro — disse Madame Rosmerta, com uma risadinha. — Nunca se via um sem o
outro, não é mesmo? O número de vezes que os dois estiveram aqui,
ah, me faziam rir o tempo todo. Uma dupla incrível, Sirius Black e
Tiago Potter!
Harry
deixou cair a caneca com estrépito. Rony deu-lhe um pontapé.
—
Exatamente — disse a Profª. Minerva. — Black e Potter líderes de uma
turminha. Os dois muito inteligentes, é claro, na verdade excepcionalmente
inteligentes, mas acho que nunca tivemos uma dupla de criadores de
confusões igual...
—
Não sei — disse Hagrid, dando uma risadinha. — Fred e Jorge Weasley seriam
páreo duro para os dois.
—
Poder-se-ia até pensar que Black e Potter eram irmãos!
O
Profº. Flitwick entrou na conversa.
—
Inseparáveis!
—
Claro que eram — comentou Fudge. — Potter confiava mais em Black do que em
qualquer outro amigo. Nada mudou quando os dois terminaram a escola. Black
foi o padrinho quando Tiago se casou com Lílian. Depois, eles o escolheram
para padrinho de Harry. O garoto nem tem idéia disso, é claro. Vocês
podem imaginar como isto o atormentaria.
—
Por que Black acabou se aliando a Você-Sabe-Quem? — cochichou Madame
Rosmerta.
—
Foi muito pior do que isso, minha querida... — Fudge baixou a voz e
continuou numa espécie de sussurro grave. — Muita gente desconhece que
os Potter sabiam que Você-Sabe-Quem queria pegá-los. Dumbledore, que
naturalmente trabalhava sem descanso contra Você-Sabe-Quem, tinha um bom
número de espiões úteis. Um deles avisou-o e ele, na mesma hora,
alertou Tiago e Lílian, Dumbledore aconselhou os dois a se esconderem. Bem,
é claro que não era fácil alguém se esconder de Você-Sabe-Quem.
Dumbledore
sugeriu aos dois que teriam maiores chances de escapar se apelassem para o
Feitiço Fidelius.
—
Como é que é isso? — perguntou Madame Rosmerta, ofegando de interesse, O
Profº. Flitwick pigarreou.
—
Um feitiço extremamente complexo — explicou com a sua vozinha fina —, que
implica esconder o segredo, por meio da magia, em uma única pessoa viva. A
informação é guardada no íntimo da pessoa escolhida, ou fiel do segredo, e torna-se impossível encontrá-la, a não
ser, é claro, que o fiel do segredo resolva contar a alguém. Enquanto
ele se mantiver calado, Você-Sabe-Quem poderia revistar o povoado em que Lílian e Tiago
viviam durante anos sem jamais encontrá-los, mesmo que ficasse com o
nariz grudado na janela da sala deles!
—
Então Black era o fiel do segredo dos Potter? — sussurrou Madame Rosmerta.
—
Naturalmente — respondeu a Profª. Minerva. — Tiago Potter contou
a Dumbledore que Black preferiria morrer a contar onde eles estavam,
que Black estava pensando em se esconder também... Mesmo assim,
Dumbledore continuou preocupado. Eu me lembro que ele próprio se ofereceu
para ser o fiel do segredo dos Potter.
—
Ele suspeitava de Black? — exclamou Madame Rosmerta.
—
Ele tinha certeza de que alguém intimo dos Potter tinha mantido
Você-Sabe-Quem informado dos movimentos do casal — respondeu a Profª.
Minerva sombriamente.
—
De fato, ele vinha suspeitando havia algum tempo de que alguém do nosso
lado virara traidor e estava passando muita informação para
Você-Sabe-Quem.
—
Mas Tiago Potter insistiu em
usar Black?
—
Insistiu — disse Fudge com a voz carregada. — E então, pouco mais de uma
semana depois de terem realizado o Feitiço
Fidelius...
—
Black traiu os Potter? — murmurou Madame Rosmerta.
—
Traiu. Black estava cansado do papel de agente duplo, estava pronto a
declarar abertamente o seu apoio a Você-Sabe-Quem, e parece que planejou
fazer isso assim que os Potter morressem. Mas, como todos sabem,
Você-Sabe-Quem encontrou sua perdição no pequeno Harry Potter. Despojado de poderes, extremamente enfraquecido, ele fugiu. E isto deixou Black numa posição realmente muito difícil. Seu mestre caíra no exato momento em que ele, Black, mostrara quem de fato era, um traidor. Não teve outra escolha senão fugir...
Você-Sabe-Quem encontrou sua perdição no pequeno Harry Potter. Despojado de poderes, extremamente enfraquecido, ele fugiu. E isto deixou Black numa posição realmente muito difícil. Seu mestre caíra no exato momento em que ele, Black, mostrara quem de fato era, um traidor. Não teve outra escolha senão fugir...
—
Vira-casaca imundo e podre! — exclamou Hagrid tão alto que metade do bar
se calou.
—
Psiu! — fez a Profª. Minerva.
—
Eu o encontrei! — rosnou Hagrid, — Devo ter sido a última pessoa que viu
Black antes de ele matar toda aquela gente! Fui eu que salvei Harry
da casa de Lílian e Tiago depois que o casal morreu! Tirei o garoto
das ruínas, coitadinho, com um grande corte na testa, e os pais mortos...
E Sirius Black aparece naquela moto voadora que ele costumava usar. Nunca
me ocorreu o que ele estava fazendo ali. Eu não sabia que ele era o fiel
do segredo de Lílian e Tiago. Pensei que tivesse acabado de saber da
notícia do ataque de Você-Sabe-Quem e vindo ver o que era possível fazer.
Estava tremendo, branco. E vocês sabem o que eu fiz? EU CONSOLEI O TRAIDOR ASSASSINO! — bradou Hagrid.
—
Hagrid, por favor! — pediu a Profª. Minerva. — Fale baixo!
—
Como é que eu ia saber que ele não estava abalado com a morte de Lílian e
Tiago? Que estava preocupado era com Você-Sabe-Quem!
Então
ele disse:
—
"Me dá o Harry, Hagrid. Sou o
padrinho dele, vou cuidar dele”... Ah! Mas eu tinha recebido ordens
de Dumbledore, e disse não, Dumbledore tinha me mandado levar
Harry para a casa dos tios. Black discordou, mas no fim cedeu. Me disse,
então, que eu podia pegar a moto dele para levar Harry. "Não vou precisar mais dela",
falou. Eu devia ter percebido, naquela hora, que alguma coisa não estava
cheirando bem. Black adorava a moto. Por que estava dando ela para mim?
Por que não ia precisar mais da moto? A questão é que a moto era muito
fácil de localizar. Dumbledore sabia que ele tinha sido o fiel do segredo
dos Potter. Black sabia que ia ter que se mandar àquela noite, sabia
que era uma questão de horas até o Ministério sair à procura dele. Mas e
se eu tivesse entregado Harry a Black, hein?
Aposto como ele teria jogado o garoto no mar no meio do caminho. O
filho dos melhores amigos dele! Mas quando um bruxo se alia ao lado
das trevas, não tem mais nada nem ninguém que tenha importância para
ele...
À
história de Hagrid seguiu-se um longo silêncio. Então, Madame Rosmerta
falou com uma certa satisfação.
—
Mas ele não conseguiu desaparecer, não foi? O Ministério da Magia o
agarrou no dia seguinte!
—
Ah, se ao menos isso fosse verdade — lamentou Fudge com amargura. — Não
fomos nós que o encontramos. Foi o pequeno Pedro Pettigrew, outro
amigo dos Potter. Com certeza, enlouquecido de pesar e sabendo que Black
fora o fiel do segredo dos Potter, Pedro foi pessoalmente atrás dele.
—
Pettigrew... Aquele gordinho que sempre andava atrás dos dois em Hogwarts?
— perguntou Madame Rosmerta.
—
Ele venerava Black e Potter como se fossem heróis — disse a Profª. Minerva. —
Não estava bem à altura deles em termos de talento. Muitas vezes
fui severa demais com ele. Podem imaginar agora como me... Como me
arrependo disso... — Sua voz parecia a de alguém que apanhara de repente
um resfriado.
—
Vamos, Minerva — consolou-a Fudge, com bondade. — Pettigrew teve uma morte
de herói. Testemunhas oculares, trouxas, é claro, depois limpamos a
memória deles, nos contaram como Pettigrew encurralou Black. Dizem que
ele soluçava: "Lílian e Tiago,
Sirius! Como é que você pôde?" Então fez menção de apanhar a
varinha. Bem, naturalmente, Black foi
mais rápido. Fez Pettigrew em pedacinhos...
A
Profª. Minerva assoou o nariz e disse com a voz embargada:
—
Menino burro... Menino tolo... Nunca teve jeito para duelar... Deveria ter
deixado isso para o ministério...
—
E vou dizer uma coisa, se eu tivesse chegado ao Black antes de
Pettigrew, não teria apelado para varinhas, eu teria despedaçado ele aos
bocadinhos — rosnou Hagrid.
—
Você não sabe o que está dizendo, Hagrid — disse Fudge com severidade. —
Ninguém, a não ser bruxos de elite do Esquadrão de Execução das Leis
da Magia, teria tido uma chance contra Black depois que ele foi
encurralado. Na época, eu era ministro júnior no Departamento de Catástrofes
Mágicas, e fui um dos primeiros a chegar à cena depois que Black
liquidou aquelas pessoas, nunca vou me esquecer. Ainda sonho com o que vi,
às vezes. Uma cratera no meio da rua, tão funda que rachou a tubulação
de esgoto embaixo. Cadáveres por toda a parte. Trouxas berrando. E Black
parado ali, dando gargalhadas, diante do que restava de Pettigrew... Um
monte de vestes ensangüentadas e uns poucos, uns poucos fragmentos...
A
voz de Fudge parou abruptamente. Ouviu-se o barulho de cinco narizes sendo
assoados.
—
Bem, aí tem você, Rosmerta — disse Fudge com a voz carregada. — Black foi
levado por vinte policiais do Esquadrão de Execução das Leis da Magia
e Pettigrew recebeu a Ordem de Merlim, Primeira Classe, o que acho que
foi algum consolo para a coitada da mãe dele. Black tem estado preso
em Azkaban desde então.
Madame
Rosmerta deu um longo suspiro.
—
É verdade que ele é doido, ministro?
—
Eu gostaria de poder dizer que é — disse Fudge lentamente. — Acredito que
é certo que a derrota do mestre o desequilibrou por algum tempo. O
assassinato de Pettigrew e de todos aqueles trouxas foi trabalho de um
homem desesperado e acuado, cruel... Sem sentido. Mas eu encontrei
Black na última inspeção que fiz à Azkaban. Vocês sabem que a maioria dos
prisioneiros lá ficam sentados no escuro resmungando; não dizem coisa com
coisa... Mas fiquei chocado com a aparência normal de Black.
Conversou comigo muito racionalmente. Me deixou nervoso. Deu a impressão
de estar meramente entediado, perguntou se eu já tinha acabado de ler o
meu jornal, com toda a tranqüilidade, disse que sentia falta das palavras
cruzadas. Fiquei realmente espantado de
ver o pouco efeito que os dementadores estavam causando nele, e,
vejam, ele era um dos prisioneiros mais fortemente guardados do lugar. Dementadores à porta da cela dia e noite.
—
Mas para que o senhor acha que ele fugiu? — perguntou Madame Rosmerta. —
Por Deus, ministro, ele não está tentando se juntar a Você-Sabe-Quem,
está?
—
Eu diria que esse é o plano dele, hum, a longo prazo — disse Fudge
evasivamente. — Mas temos esperança de pegar Black bem antes disso. Devo
dizer que Você-Sabe-Quem sozinho e sem amigos é uma coisa... Mas se tiver
de volta o seu serviçal mais dedicado, estremeço só em pensar na rapidez
com que se reergueria...
Ouviu-se
um leve tilintar de copo em
madeira. Alguém pousara o copo.
—
Sabe, Cornélio, se você vai jantar com o diretor, é melhor voltarmos para
o castelo — sugeriu a Profª. Minerva.
Um
por um, os pares de pés à frente de Harry retomaram o peso dos seus donos;
barras de capas rodopiaram no ar e os saltos cintilantes de Madame
Rosmerta desapareceram atrás do balcão do bar. A porta do Três Vassouras
tornou a se abrir, deixando entrar mais uma rajada de flocos de neve
e os professores desapareceram.
—
Harry?
Os
rostos de Rony e Hermione surgiram embaixo da mesa. Os dois o encararam,
sem encontrar palavras para falar.
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